Abril Indígena e a urgência de ouvir vozes originárias
Para além de uma data simbólica, o Abril Indígena se afirma, a cada ano, como um momento fundamental de reflexão sobre a realidade dos povos originários no Brasil. Nesse contexto, os Núcleos de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABIs) da UTFPR — campi Francisco Beltrão, Dois Vizinhos e Pato Branco — promoveram, nos dias 14 e 15 de abril de 2026, uma série de atividades que mobilizaram a comunidade regional em torno de debates urgentes e necessários. O destaque da programação foi a presença da rapper e ativista indígena Katú Mirim, que realizou encontros nos três campi, reunindo estudantes universitários, alunos da educação básica e a comunidade em geral. Com uma trajetória marcada pela arte e pelo ativismo, Katú Mirim trouxe à tona discussões sobre identidade, pertencimento e resistência, a partir de sua vivência como mulher indígena urbana, LGBTQIAPN+ e artista de projeção nacional. Mais do que apresentações, os encontros se constituíram como espaços de escuta e diálogo. Por meio de uma linguagem acessível, mas profundamente crítica, a artista problematizou o lugar dos povos indígenas na sociedade brasileira contemporânea, evidenciando as marcas de um processo histórico de violência, apagamento cultural e expulsão de territórios, dinâmicas que, longe de pertencerem apenas ao passado, seguem em curso. Um dos pontos centrais das discussões foi a realidade de indígenas em contexto urbano e em processos de retomada identitária. O crescimento nos registros demográficos da população indígena no Brasil, especialmente nas últimas décadas, não pode ser compreendido sem considerar as transformações nas políticas públicas e no reconhecimento de direitos, mas também revela a resistência de sujeitos historicamente silenciados que reivindicam sua identidade e seu lugar na sociedade. Nesse cenário, a arte emerge como ferramenta potente de visibilidade e enfrentamento. A música de Katú Mirim, assim como sua atuação política, evidencia o papel da cultura na construção de novas narrativas sobre os povos indígenas, rompendo estereótipos e ampliando o acesso ao debate público. Em Dois Vizinhos, o evento contou com ampla participação tanto da comunidade universitária quanto da comunidade externa, com destaque para a presença do Colégio Estadual Duque de Caxias, que levou turmas do oitavo ano. A roda de conversa teve duração aproximada de uma hora e meia e foi mediada por duas acadêmicas indígenas, uma da etnia Munduruku e outra do povo Kuruáya, ambas integrantes do NEABI-DV. Durante a atividade, Katú Mirim abordou a busca por sua ancestralidade, suas vivências como rapper indígena e temas mais amplos, como a luta pela demarcação de terras e os direitos dos povos indígenas. Em Pato Branco, a atividade contou com a presença de membros das comunidades indígenas de Alto Pinhal e Mangueirinha, contando com a participação de diversas lideranças indígenas, entre eles Adair Rodrigues, representando o Cacique Miguel, e Carlos Frederico Branco, representando a Brigada Florestal Goj ki Pyn. A atividade foi precedida de uma batalha de rap, promovida pelos MCs Mamats, PH e Iogue, da Batalha da Resistência e da Alcateia , que levantaram a plateia para a recepção da Katú Mirim. A mesa redonda que foi mediada pelo historiador Rafael Mello, contou ainda com a participação da Professora Mirian Joseli Kenpry Marcial, que atua na Escola Indígena da Comunidade do Alto Pinhal e relatou sobre o cotidiano escolar nas comunidades indígenas do Sudoeste do Paraná. A atividade contou ainda com a Presidenta da APP-Sindicato, Diuliana Claudia Baratto, da Historiadora Lais Vasconcelos, representando a Dep. Fed. Carol Dartora, do Presidente do Núcleo de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas Kreibanguerê, Prof. Fabiano Alan Serafim Ferrari, e do Diretor de Campus, Prof. Neimar Follmann, enaltecendo a importância dos povos indígenas no meio acadêmico e da celebração desta data especial. A atividade realizada em Francisco Beltrão, reuniu um público diverso, composto por acadêmicos de diferentes cursos da UTFPR, estudantes do Colégio Agrícola e membros da comunidade externa, configurando um espaço plural de diálogo e aprendizagem. O evento contou com a presença da diretora em exercício Thalita Rauen, reforçando o compromisso institucional com a promoção de debates relevantes e acessíveis. A mediação da roda de conversa foi conduzida por Raoane Ribeiro, contribuindo para uma dinâmica participativa e acolhedora. Marcada por um tom descontraído, a atividade possibilitou intensa interação com o público, que pôde dialogar diretamente com a artista e refletir sobre diferentes questões indígenas a partir de suas vivências e trajetória. As atividades realizadas nos três campi da UTFPR foram resultado de uma articulação que ultrapassa os limites da universidade, envolvendo diferentes sujeitos e coletivos da região sudoeste do Paraná. Essa mobilização reafirma o compromisso institucional com a promoção de uma educação crítica, inclusiva e comprometida com o combate ao racismo e às diversas formas de preconceito. Em tempos em que os direitos indígenas seguem ameaçados, iniciativas como essa não apenas informam, mas também convocam à reflexão e à ação. Ouvir vozes originárias, em sua diversidade e potência, é um passo essencial para a construção de uma sociedade mais justa e plural.